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Índices de Suspeita

O trecho em questão continha um travessão. Não dois. Um.

Textos · 3 de set. de 2026escrita · inteligência artificial · crônica

Recebi a mensagem numa tarde de quarta-feira — horário de baixa resistência emocional, é bom registrar — com o seguinte diagnóstico: “esse trecho tem cara de IA.” O trecho em questão continha um travessão.

Não dois. Um.

O especialista — e uso o termo com a generosidade que ele merece, que é pouca — havia identificado no meu travessão a assinatura inequívoca de uma inteligência artificial. A lógica, presumo, era a seguinte: IAs usam travessões; logo, travessões são IA. Silogismo impecável. Aristóteles choraria, mas de quê exatamente seria difícil precisar.

Deixei passar. Fiz isso com a serenidade de quem já viu muito e com a covardia de quem não queria a discussão naquela tarde específica.

Mas o travessão ficou.

Verbete I

Travessão (s.m.): sinal gráfico de uso milenar na língua portuguesa, empregado para isolar apostos, introduzir falas e, segundo a mais recente escola de detecção, denunciar o uso de inteligência artificial em textos humanos. Predecessores ilustres: sem registro disponível, pois a ferramenta de detecção não chegou até eles.

O problema — e aqui peço ao leitor que note o travessão, porque haverá outros — não é a ignorância em si. A ignorância é uma condição universal e democrática; todos a cultivamos em alguma área, e não há desonra nisso. Eu, por exemplo, não entendo nada de motores de combustão e me recuso a opinar sobre carburadores.

O especialista em IA, contudo, tem uma característica que o distingue do ignorante comum: ele opina. E opina com a autoridade específica de quem confunde familiaridade com uma tecnologia com conhecimento sobre o que ela substitui. Sabe que a IA usa travessões. Ignora — e este é o detalhe interessante — por quê.

A resposta, para quem se perguntar: porque a IA foi treinada em textos humanos. Bons textos humanos. E bons textos humanos usam travessões.

A cadeia causal, portanto, vai na direção oposta à que o especialista imagina.

Verbete II

Detector de IA (s.m.): ferramenta ou pessoa capaz de identificar, com confiança inversamente proporcional ao seu repertório literário, marcas de escrita artificial em textos humanos. Principais índices de suspeita documentados: travessão, ponto-e-vírgula, vocabulário acima do nível médio, frase longa, frase curta demais, coesão textual e — caso extremo — originalidade.

Há uma ironia — travessão — que o especialista não alcança: a de que o texto com mais cara de IA que já li na vida foi escrito por um ser humano empenhado em parecer natural. Sem travessões. Sem subordinadas. Sem nada que pudesse levantar suspeitas. Liso como formulário de banco, e com o mesmo calor.

A IA, quando escreve bem — e às vezes escreve —, imita os melhores. O especialista, quando escreve com medo de parecer IA, imita o formulário.

Fica a reflexão.

Verbete III

Ponto-e-vírgula (s.m.): pontuação de alto risco; investigações em curso. Suspeitos: qualquer pessoa que tenha lido além do ensino médio. Status atual: vigiado.

Não guardo rancor. Ou guardo pouco — o suficiente para esta crônica e não mais. O especialista em IA é um produto do seu tempo, como todos somos, e o seu tempo é um em que a tecnologia se move mais rápido do que o letramento sobre ela. É compreensível. É até um pouco trágico, se você for do tipo que acha tragédias pequenas interessantes, o que eu sou.

O que me incomoda — com a precisão clínica de quem localiza o cálculo renal no raio-X — não é ser confundido com uma máquina. É ser confundido com uma máquina por alguém que não leu o suficiente para saber que sou eu.

Há uma diferença entre não me reconhecer e não ter as ferramentas para me reconhecer. A segunda é mais triste. E esta impaciência — esta aqui, agora, que você está sentindo na cadência da frase — é minha. Bem minha. Das mais humanas que tenho.

Verbete Final

Assinatura autoral (s.f.): conjunto de escolhas estilísticas — ritmo, vocabulário, pontuação, estrutura de frase — acumuladas ao longo de anos de leitura e escrita, por meio das quais um texto revela seu autor a quem tem olhos para ver. Não detectável por software. Também não detectável por quem não leu o suficiente. Sintomas de presença: travessões, entre outros.